quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Estudo sobre o apóstolo Paulo 2

Paulo e o Evangelho entre os Gentios
Por: Pr. Esdras Costa Bentho
“... e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas
as igrejas dos gentios” (Rm 16.4)
O Senhor, nosso Deus, não faz acepção de pessoas (Dt 10.17; At 10.34; Rm 2.11; Ef 6.9). Criou tudo e todos e preserva-os pela sua gloriosa bondade e justiça (Sl 36.6; 68.19; 103.13-19; 104.9-31; At 17.25-28). Ele ama a todos indistintamente e deseja a salvação de toda humanidade (Jo 3.16; At 17.30,31; Rm 1.16; Tt 2.11), através de seu Filho, Jesus (Mt 1.21; At 4.12; Rm 3.24; 2 Co 5.18).

OS GENTIOS NO ANTIGO TESTAMENTO
1. As nações descendentes de Noé (Gn 9.18,19). Toda a raça humana descende de um casal criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27; 5.2; Mc 10.6; At 17.25,26). O homem foi criado santo, justo e bom para a glória do nome santo do Senhor (Gn 5.1; Sl 115.1; Ec 7.29; Is 43.7). Todavia, com a Queda e o crescimento da maldade no mundo (Gn 4.8,23; 6.11,12), Deus enviou o Dilúvio, salvando apenas a família do justo Noé (Gn 6 – 9; Hb 11.7; 1 Pe 3.20; 2 Pe 2.5). De seus descendentes, Jafé (Gn 10.2-5), Cam (Gn 10.6-20), e Sem (Gn 10.21-31), formaram-se as nações com suas respectivas geografias (Gn 10 – 11). Entretanto, os homens continuavam desobedecendo a Deus (Gn 11.1-9), apesar dos justos que sempre se mantiveram fiéis ao Deus verdadeiro em todas as gerações (Gn 4.26; 5.22; Gn 7.1). Do interior desse cenário pecador, Deus chama um descendente de Sem, Abraão, para que dele uma nova nação fosse formada (Gn 12.1-3).

2. A exclusividade dos descendentes de Abraão (Gn 15.5,6; Dt 14.2). Ao chamar Abraão para que de seus descendentes fosse constituído uma nova nação ou povo eleito, o Senhor começa uma nova história: A do povo de Israel (Gn 12.1-3; 13.14-17; 15.4-7,17-21). O propósito de Deus para a nação judaica (Gn 18.18; 22.18) era torná-la propriedade peculiar, reino sacerdotal e povo santo (Êx 19.5,6). Israel fora constituída uma nação peculiar e distinta dos outros povos, pois Deus a escolhera para si (Is 44.1-2; Ez 20.5). A partir de então, todas as etnias, raças, ou povos que não fossem descendentes de Abraão ou israelitas eram considerados gôyim, cujo significado básico é “nações”, “estrangeiros”, “gentios” ou “pagãos” (Gn 15.18-21). Essas nações são conhecidas pela idolatria, depravação (Lv 18.22-24), e perversidade com que tratavam os seus filhos (Lv 18.21; 20.2-5). Contudo, a nação de Israel não fora apenas eleita para ser o instrumento pelo qual o Senhor alcançaria os gentios que respondessem positivamente à salvação oferecida pelo Deus de Israel (Gn 12.3; 22.16-18; Sl 67.2-4), mas também o povo pelo qual o Eterno destruiria os gentios rebeldes (Gn 12.3; 15.16; ver Dt 7 – 8; Gl 3.8).

3. A salvação dos gentios anunciada no Antigo Testamento. Apesar de o Senhor estabelecer e amar a Israel, a nação desobedecia-o perversa e continuamente (2 Rs 21.2; 2 Cr 28.3; 36.14; Is 1.1-30; 30.9; 65.1-7; Rm 10.21). Contudo, Deus prosseguiria com seu plano santo para oferecer aos gentios a redenção (Rm 11.25-310). Já ao crente Abraão Deus prometera que os gentios que o abençoassem seriam abençoados, e nele, todas as famílias da terra seriam benditas (Gn 12.3; Gl 3.8,9,13,14; Rm 4.17). Várias passagens das Escrituras revelam o amor de Deus manifestado gratuitamente aos gentios que exerceram fé no Santo de Israel, como por exemplo, Raabe (Js 6.1-27); Rute (Rt 1– 4 ); Naamã (2 Rs 5.1-19), e os ninivitas (Jn 3.1-10). Se isso não bastasse, o Senhor prometera tornar os gentios o seu povo (Is 11.1,10; 421-5; 52.15; 65.1; compare com Mt 12.18-21; At 15.14-18; Rm 9.25-30; 10.19-21; 15.8-12, 19-21).
4. A salvação dos gentios interpretada pelo apóstolo Paulo. Em nossa mais recente obra, Igreja: Identidade e Símbolos, discutimos exaustivamente o tema da igreja entre os gentios, a interpretação de Paulo a respeito da conversão dos pagãos, e o estabelecimento de uma comunidade de redimidos entre eles. A expressão ekklēsiai tōn ethnōn, em Rm 16.4, quer dizer “igreja dos gentios”. Todavia não é impróprio traduzir a expressão por “igrejas das nações”, ou ainda “igrejas étnicas”.

No leitmov paulino 
ta ethnē corresponde aos gentios em diversas perícopes ( vide Rm 2.14; 9.30; 15.9-11,12,16,27; Gl 2.8,9,14; 3.8,14; Ef 2.11; 3.6; 4.17; 1 Ts 4.5; 1 Tm 4.17; ver ainda Mt 6.32; 12.21; Lc 12.30; At 10.45), aos pagãos (1 Co 12.2), ou às nações não-judaicas (Rm 16.26; cf. Mt 25.32; 28.19; Mc 13.10; Lc 21.24). Em qualquer um desses textos ta ethnē corresponde aos pagãos, aos gentios, às nações não-judaicas, e também às igrejas e cristãos gentílicos.

Especificamente, a perícope paulina de Romanos 15.9-27, apresenta o caráter escatológico da igreja dos gentios desde o Antigo Testamento. As citações do Salmo 18.49 no versículo 9, de Deuteronômio 32.43 no versículo 10, do Salmo 117.1 no versículo 11, e de Isaías 11.1 no versículo 12 (entre outros) fundamentam a realidade histórico-escatológica das igrejas dos gentios como projeto histórico-redentor de Deus na História. Com muita perspicácia, Paulo cita textos da Torá, dos Profetas e dos Escritos a fim de enfatizar, conforme J.J.Pilch, “que toda a Escritura hebraica anunciou que os pagãos se tornariam parte do plano de Deus e se juntariam ao povo escolhido”.

Na primeira referência veterotestamentária, Davi refere-se às nações gentílicas que habitavam nos limítrofes e até mesmo em Israel, conforme a citação de Tiago em Atos 15.16,17. Paulo mantém a tônica dos ensinos de Romanos 9 – 11 em que a salvação dos gentios está relacionada intrinsecamente ao paradoxo da rejeição e salvação de Israel: “Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo, ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo” (Rm 9.25,26). Deus, portanto, não chamou à igreja apenas dentre os judeus, mas também dentre os gentios (Rm 9.24), e, segundo Bultmann, como “comunidade escatológica e povo de Deus dos tempos finais”.

Na segunda incursão nos textos hebraicos (v.10), Paulo traduz o hebraico gôy, “nação”, “povo”, mas principalmente “pagãos”, “gentios” por panta ta ethnētodas as nações, conforme a LXX. Desde os primórdios da tradição patriarcal, os gôyim (plural), apesar da incredulidade e paganismo, participariam, desde que cressem, das bênçãos divinas prometidas a Abraão e a seus descendentes no futuro (Gn 12.1-3).

A ênfase e a estrutura poética de Deuteronômio 32.21 clamam por uma abordagem específica. Contudo, interessa-nos, por enquanto, o vaticínio profético da sentença. A idolatria de Israel provocara a ira do Senhor, e, por conseguinte (ação e reação), Deus provocaria o povo de Israel com “os que não são povo; com nação louca” os despertaria à ira. (ver Dt 31.17,18).

A explicação etno-soteriológica em Paulo entende que se trata insofismavelmente dos gentios. Essa interpretação é reforçada pela leitura paulina do Salmo 117. 1, no versículo 11 de Romanos 15. O plural hebraico 
gôyim é traduzido, como já afirmamos, por panta ta ethnē pela LXX, opção também seguida por Paulo. Portanto, escreve Paulo à igreja de Roma (1.7), “abundeis em toda esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15.13). Não há qualquer restrição à igreja dos gentios a respeito do Pneumatos Hagios. Eles devem “transbordar” (perisseuo) na esperança (elpis), na alegria (khara), na paz (eirene) pelo poder (en dynamei) do Espírito. Contudo, a igreja dos e entre os gentios trazia sua própria identidade antropocultural, muito embora conservasse os principais fundamentos da fé veterotestamentária e possuísse a virtude do Espírito.

OS GENTIOS EM O NOVO TESTAMENTO

1. Nos Evangelhos. Nos Evangelhos encontramos referências aos gentios em Mateus (6.7,32; 12.18; 18.17, etc.), Marcos (10.33) e Lucas (12.30; 18.32; 21.24; 22.25). Na maioria das vezes, os gentios são descritos com suspeição (Mt 20.19; Mc 10.33), no entanto, Mateus 12.18-21 destaca a missão profética do Messias entre os gentios (Is 42.1-4), enquanto Mateus 10.18 o testemunho dos apóstolos entre eles. Embora o objetivo da missão de Cristo e dos Doze fosse anunciar o Reino dos céus às “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 12.6; 15.24), muito gentios, assim como no Antigo Testamento, foram alcançados pela graça de nosso Senhor Jesus, como por exemplo, a mulher cananeia (Mt 15.21-28), e o centurião (Lc 7.1-10). João afirma que Jesus veio para os judeus, mas eles o rejeitaram (Jo 1.11-13) e crucificaram-no (Jo 19.13-16). Todavia, após a ressurreição, Jesus comissionou os apóstolos para que anunciassem o evangelho a todos os gentios (Mt 28.19,20; Mc 16.15,16), e não somente aos judeus.

2. Nos Atos dos Apóstolos. A primeira menção aos gentios em Atos refere-se ao conluio entre judeus e gentios para crucificar o Messias (At 4.27). Embora Atos 1.8 estabelecesse a missão dos apóstolos entre os gentios, somente em Atos 9.15, com a conversão de Paulo, é que se declara enfaticamente a evangelização dos gentios (ver At 13.44-47). Todavia, a resistência dos apóstolos em evangelizá-los (At 10.9-16) é vencida quando Cornélio e os demais recebem o dom do Espírito Santo (At 10.44-48). O fato trouxe perturbações (At 11.1-3,18), mas após a justificativa de Pedro (At 11.4-17 ver 15.7-11), a igreja glorificou a Deus pelo arrependimento dos gentios (At 10.45; 11.18; 15.3,12). Porém, manteve-se anunciando o evangelho somente aos judeus (At 11.19), e, posteriormente, constrangendo os gentios crentes à circuncisão (At 15.1).

3. Missão e Salvação entre os Gentios. Se Pedro e o evangelho da circuncisão são proeminentes nos capítulos 1 a 12 de Atos, dos capítulos 13 ao 28 serão Paulo e o evangelho da incircuncisão (Gl 1.7). O primeiro diz respeito aos judeus, e o segundo aos gentios (At 13.44-47). Paulo estava consciente que fora chamado por Deus para anunciar o evangelho aos gentios (At 9.15; 13.47; 22.21; Rm 15.16; Ef 3.8), sem os entraves da lei (At 15.19, 28, 29; Rm 4.9-16). Diferentemente dos judeus incrédulos (At 13.46, 50; 14.2) muitos gentios converteram-se ao Senhor (At 11.1,18; 13.20-23), e se interessaram em ouvir o evangelho (At 13.42). Alguns receberam com alegria o evangelho (At 13.48), mas outros, incitados pelos judeus, resistiram (At 14.1-6; 17.13). Contudo, Deus “abrira aos gentios a porta da fé” (At 14.27), e nem mesmo os entraves do legalismo dos crentes judeus impediriam a salvação dos gentios (At 15.20-31; Rm 3.29), como profetizado desde o Antigo Testamento (Rm 16.25-27).

4. As Atividades Evangelísticas entre os Gentios. Em nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, comentamos que F.F.Bruce afirma que durante dez anos, de 47-57 d.C., Paulo realizou intensa atividade missionária nos territórios que margeiam o Mar Egeu. O labor paulino foi dirigido especificamente às províncias romanas da Galácia, Macedônia, Grécia, Acaia e Ásia. Contudo, uma leitura despretensiosa do livro de Atos dos Apóstolos revelará as incursões missionárias:
·                  nas cidades das três províncias litorâneas do Mediterrâneo (Lícia, Panfília, Cilícia),
·                  das três do litoral do Mar Egeu (Mísia, Lidia, Caria),
·                  das três litorâneas ao Mar Negro (Ponto, Bitínia, Paflagônia), e,
·                  nas províncias do interior (Galácia, Capadócia, Licaônia, Pisídia, Frígia).
Entre as muitas cidades que foram alvos da missão salvífica do apóstolo, destacam-se: Éfeso, Tessalônica, Corinto, Galácia, Pérgamo, Tiatira, Atenas, Filadélfia, Esmirna, Troade, Mileto, Laodiceia, Colossos, Sardes entre outras. As igrejas edificadas nessas localidades foram citadas direta e indiretamente por Paulo em vários textos de suas epístolas.



5. A Formação da Igreja entre os Gentios. Ainda em nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, explicamos a formação da igreja gentílica, referindo-nos ao fato de que Paulo faz várias referências à igreja gentílica como uma comunidade local ou doméstica:“igreja que está em Cencreia”; “igreja que está em sua casa”; “em cada igreja” (Rm 16.1.5; 1 Co 4.17). “Em cada igreja” é, por extensão, “toda a igreja” (Rm 16.23; 1 Co 4.17). Febe servia a Deus na comunidade cristã citadina de Cencreia, cidade portuária oriental de Corinto. Provavelmente, a igreja mencionada não se reunia em templos, mas em casa, como atesta o versículo 5 de Romanos 16, a respeito da comunidade cristã que se reunia na casa de Prisca e Áquila (1 Co 16.19).

As 
ekklēsiai tōn ethnōn, do versículo 4 (Rm 16), são as igrejas gentílicas da Ásia Menor que agradecem ao casal Priscila e Áquila pelo esforço sacrifical a favor de Paulo. Estas igrejas eram “comunidades paulinas”, compostas por cristãos de várias etnias que viviam na Ásia. Entre eles, o Apóstolo dos Gentios destaca o irmão Epêneto, “que é as primícias da Ásia para Cristo” (v.5). Este cristão, a quem Paulo chama de agapētón mou, “meu amado”, fora um dos primeiros convertidos ao evangelho na Ásia Menor. “As primícias da Ásia para Cristo”, refere-se à fundação das igrejas citadinas na Ásia.

JUDEUS E GENTIOS UNIDOS POR DEUS MEDIANTE A CRUZ
1. A igreja de Deus. Pedro em defesa do evangelho entre os gentios afirmou que “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome” (At 15.14). Esse novo povo é a Igreja, formada por judeus e gentios convertidos a Cristo (Rm 9.29). De ambos os povos, judeus e gentios, Cristo fez apenas um, “derribando a parede de separação que estava no meio”, e, pela cruz, “reconciliou ambos com Deus em um corpo” (Ef 2.14-16). Assim, o Espírito Santo revela a Paulo (Ef 3.4,5), que os gentios não são mais estrangeiros (gôyim), nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos, da família de Deus (Ef 2.11-22; 1 Pe 2.5), co-herdeiros e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho (Ef 3.6).

2. Expansão da igreja entre os gentios. Através das viagens missionárias de Paulo, o apóstolo dos gentios (Rm 11.13; Ef 3.7), o evangelho propagou-se entre os povos, raças e culturas que estavam ao alcance dele naqueles dias (Rm 15.19,20). Em várias regiões foram estabelecidas igrejas formadas principalmente por gentios (Rm 16.4). Essas comunidades de redimidos auxiliaram a igreja da Judeia, composta em sua maioria por judeus, em suas necessidades (Rm 15.25-33; 2 Co 8 – 9). O Senhor Jesus estava preservando os cristãos judeus por meio da riqueza da igreja gentílica.

3. A tarefa inacabada. A tarefa de evangelização dos gentios ainda é uma das maiores responsabilidades da igreja moderna. Quando Israel falhou em anunciar a salvação do Senhor entre as nações pagãs, Deus levantou a igreja, formada por gentios e judeus crentes em Jesus. Mas se nós, a igreja do Senhor, não anunciarmos o evangelho aos povos, quem irá? Deus o chama para ser atalaia nesse mundo perverso (Mc 16.15-18).

CONCLUSÃO
A salvação dos gentios sempre foi propósito do Senhor. Ele deseja que todos os homens sejam salvos, pois ama a todos indistintamente. Em pleno século 21, muitos ainda não ouviram falar do evangelho de Jesus. Não queres hoje ir aos gentios e anunciar-lhes a salvação em Cristo?

Se você gostou desse artigo, não se esqueça de adquirir nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, onde tratamos de vários outros detalhes a respeito do estabelecimento e formação da igreja entre os gentios.

sábado, 6 de julho de 2013

Estudo sobre o apóstolo Paulo

Paulo, o Apóstolo dos Gentios (I)


INTRODUÇÃO
Archibald Thomas Robertson afirmou com muita propriedade que, excetuando o próprio Jesus, Paulo é o principal representante de Cristo e o expoente mais hábil da fé cristã.[i] O apóstolo dos gentios desempenhou diversas funções no cristianismo primitivo: missionário, apologista, hagiógrafo, mestre, polemista, entre outras importantes atribuições.
Enquanto em Atos dos Apóstolos Pedro é proeminente nos primeiros doze capítulos, o missionário da incircuncisão ocupa a segunda e maior metade do livro, do capítulo 13 a 28. Além da proeminência que Lucas dispensa ao fundador das igrejas gentílicas em Atos dos Apóstolos, Paulo foi o escritor sacro mais profícuo do Novo Testamento. Dos vinte e sete livros, escreveu treze epístolas, conhecidas como corpus paulinum e, dos duzentos e oitenta e oito capítulos do Novo Testamento, escreveu cento e quinze, restando apenas cento e setenta e três para todos os demais hagiógrafos. De seu cálamo incansável, diz F.F.Bruce, Paulo deixa patente “quão familiarizado era com os ensinos do Senhor”.[ii]

Paulo foi derrubado para ser cegado;
foi cegado para ser mudado;
foi mudado para ser enviado;
foi enviado para que a verdade aparecesse”
(Santo Agostinho)

I. Paulo, o cidadão histórico
A identidade e historicidade de Paulo jamais foram seriamente postas em dúvida. Ernest Renan (o Cético), por exemplo, no segundo volume, Les Apotres (Os Apóstolos), da famosa obra Histoire des Origines du Christianisme (33-45), afirma que Paulo foi a maior conquista da Igreja Primitiva e o “mais ardente dos discípulos de Jesus”.[iii] Se por um lado o Cético atestava a veracidade de Paulo, por outro, Marcião o considerava, em detrimento aos demais, o único apóstolo de nosso Senhor Jesus Cristo.
Já o biblicista Fabris declara que Paulo é o personagem da primeira geração de cristãos que possui as mais comprobatórias evidências de sua pessoa e trabalho.[iv] As fontes tão variadas são que o exegeta classificou-as em:
  • fontes cristãs canônicas – o epistolário paulino;
  • fontes cristãs apócrifas – Atos de Paulo e Tecla, Apocalipse de Paulo, o Martírio de Paulo [...];
  • fontes profanas – de caráter epigráficas, literárias, papirológicas e arqueológicas [...].[v] A essas fontes devemos acrescentar os testemunhos dos sucessores dos primeiros apóstolos: Clemente de Roma, Inárcio, Policarpo e até mesmo as evidências em Marcião, o herege.
Essas evidências textuais, seja canônica, seja profana, literária ou arqueológica, auxiliam no estabelecimento e compreensão do contexto eclesiástico dos primeiros cinco séculos da Igreja Cristã. Sabe-se pelos registros dos cristãos que viveram os quingentésimos anos da Igreja, que os Pais jamais contestaram a historicidade de Paulo, muito embora haja discordância a respeito de suas epístolas. Atualmente, as controvérsias referem-se mais a autoria de algumas epístolas, chamadas deuterocanônicas, do que propriamente a pessoa e obra do apóstolo Paulo. Há, portanto, mais evidências da pessoa, ensinos e obras de Paulo do que qualquer outro grande personagem cristão da igreja nascente.

FONTES HISTÓRICAS DA VIDA DE PAULO
Epistolário Paulino
Cristãs Apócrifas
Profanas
Pais Apostólicos
Gráfico 1: Taxonomia das fontes paulinas.
1. Saulo de Tarso
Paulo era natural da célebre[vi] cidade de Tarso, localizada na Cilícia (At 9.11; 11.25; 21.39; At 22.3; Gl 1.21). Essa rica e culta cidade de língua grega ficava 26 metros acima do mar e distante 16 quilômetros do nível do Mediterrâneo. [vii] Além de ser uma das mais antigas cidades do mundo, no século 1, era a capital e a maior cidade da Cilícia.
A população de Tarso jactava-se de sua riqueza agrícola e comercial, bem como de sua universidade, julgada superior às grandes academias de Alexandria e Atenas. O historiador, geógrafo e filósofo grego Estrabão (58 a.C.) descreve o povo de Tarso como “apaixonados pela filosofia” e de “espírito enciclopédico”; e a cidade como aquela que eclipsou todas as outras que foram “terra natal de alguma seita ou escola filosófica”.[viii]
Do vulto de seus intelectuais, a cidade de Tarso orgulhava-se do filósofo estoico Athenodoros, nascido em 74 a.C., preceptor de César e autor profícuo de diversas obras históricas e filosóficas.[ix] Murph-O’Connor, assinala que os habitantes de Tarso eram seriamente entusiasmados com a educação, a ponto de saírem da terra natal em busca de mais conhecimentos.[x]
1.1. A educação do jovem hebreu de Tarso
A influência da cultura e do espírito crítico da cidade de Tarso nota-se na formação heleno-latina de Paulo. Como já citei em nossa obra Hermenêutica Fácil e Descomplicada, em Atos 17.28, por exemplo, o apóstolo cita o poeta e filósofo estoico natural da Cilícia, Arato (315-240 a.C.), e também a poesia Hino a Zeus, do filósofo estoico Cleantos (331-232 a.C.), discípulo de Zenão de Cício (332-269 a.C.), fundador da escola estoica.
Em 1 Coríntios 15.32, Paulo faz também uma referência provável a Isaías 22.13: “Comamos e bebamos, que amanhã morreremos”. Todavia, escavações arqueológicas descobriram em Anquiale, cidade vizinha a Tarso, uma estátua do fundador da “metrópole da Cilícia”, Sardanapalo, com a seguinte inscrição: “Come, bebe, desfruta a vida. O resto nada significa”. É provável que Paulo ao citar positivamente a exortação de Isaías tivesse intenção de criticar essa declaração hedonista.[xi]
Embora empregasse diversos recursos estilísticos e retóricos greco-romanos, e citasse perícopes e versos dos filósofos e poetas, a exegese paulina era fundamentalmente hebraica, condicionada, principalmente, pela sua formação judaica e leitura do Antigo Testamento dos Setenta. Mas o que sabemos concretamente a respeito da formação de Paulo em Tarso?
Entre os especialistas não há muita unidade a respeito da formação universitária de Paulo. Todos concordam que ele era um judeu culto da diáspora e familiarizado com a poesia e filosofia de sua época, porém discordam entre si a respeito da educação formal de Paulo. F. F. Bruce, baseado em Atos dos Apóstolos 22.3, afirma que Paulo embora “nascido em Tarso, foi educado em Jerusalém” e, por essa razão, o erudito não aceita a hipótese de que Paulo tenha frequentado as escolas de Tarso, muito embora vivesse em um centro de cultura grega. [xii]
Outro biblista, Christopher Forbes, ao comparar as epístolas paulinas com os recursos retóricos antigos, se convence de que “Paulo não é, em termos greco-romanos, um ‘homem de letras’ (anēr logios, At 18.24)”.[xiii] Para Forbes, a educação formal de Paulo não atingiu os níveis superiores.
Todavia, Ronald F. Hock afirma que “as cartas de Paulo, a despeito de seus desmentidores, denotam uma pessoa que havia passado pela sequência curricular da educação greco-romana”. [xiv] Para provar sua assertiva, Hock recorre à estrutura da educação formal do primeiro século e sua relação com as citações paulinas dos poetas e filósofos. As citações primárias de filósofos como Eurípedes e Menandro, justificam, para o rapsodo, a passagem de Paulo pela primeira etapa da educação grega ou pelo currículo primário; e o uso de recursos literários e das citações explícitas da Septuaginta, a participação no currículo secundário. Hock está convencido, pela análise da extensão, complexidade e vigor das epístolas paulinas que o seu autor “recebeu um treinamento continuado em composição e retórica” e, por essa razão, cursou o currículo terciário, que preparava os seus aprendentes nessas técnicas.[xv]
Há tantas lacunas cronológicas na biografia de Paulo, que estou convencido de que nenhuma das posições pode ser afirmada com certeza, e a exiguidade desse espaço não permite aprofundar as discussões. Contudo, o fato de o apóstolo ser educado em Jerusalém, não significa necessariamente que ele não completou os estudos formais comuns aos jovens de Tarso. Para retomar de outro modo a generalidade do problema, a dificuldade de se encontrar os elementos retóricos mais sofisticados e apurados nas epístolas, justifica-se por elas não serem tratados retóricos formais, mas escritos desenvolvidos para dirimir dúvida e controvérsias pontuais nas igrejas cristãs citadinas. Paulo as escreve na urgência do trabalho missionário, como justifico em nossa obraIgreja: Identidade e Símbolos.[xvi] É óbvio que os escritos de Paulo testificam da genialidade de seu autor. Dificilmente alguém negaria ao apóstolo o status de pessoa educada e instruída na filosofia, retórica e composição literária. De modo geral, em círculos mais ortodoxos, a cristandade está mais disposta a aceitar a posição de Hock do que a de Bruce e Forber, muito embora alguns especialistas prefiram o contrário.
Controvérsias à parte, independente de Paulo ter cursado ou não uma universidade em Tarso, ele era um teólogo e homem extremamente culto. E as influências culturais de ser criado em uma cidade cosmopolita, que se orgulhava de seu sistema de ensino e de seus filósofos, deixaram marcas indeléveis no jovem judeu de Tarso.
Todavia, Paulo mostra-se reticencioso no emprego de sua educação na formação das igrejas cristãs citadinas. Apesar de encontrarmos diversos recursos estilísticos e retóricos no epistolário paulino, o apóstolo recusava-se, como afirmou Ronald F. Hock, a “incorporar a sabedoria mundana na sua pregação apostólica (1 Co 2.1-4).” [xvii]

domingo, 21 de outubro de 2012

Estudo para obreiros

No feriado do dia 12 de outubro a Assembleia de Deus Nova Betania (Ministério de Caetés) foi marcada pelo estudo de obreiros ministrado pelo Pr. Vladimir Calisto (Diretor do Instituto Evangélico de Educação e Cultura) e pelo Pr. José Mário da Silva (Presidente da Assembleia de Deus Ministério de Caetés). O estudo foi dinâmico, contando com uma excelente participação da igreja que mostrou-se muito interessada em aprender a Palavra de Deus.

Os temas abordados foram:

Pr. Vladimir Calisto“REPENSANDO A CHAMADA”

Objetivo: Repensar e refletir que o Senhor nos chamou para a sua obra, e que isto é um grande privilégio, pois se somos chamados é porque Ele acredita em nós, nos valorizando e nos capacitando para trabalharmos em prol do Reino. Com efeito, além de participarmos de um árduo trabalho, também gozaremos de grandes vitórias, tanto coletivas (para igreja) como individuais onde o obreiro recebe bênçãos espirituais e materiais, experimentando assim, uma maior comunhão e intimidade com nosso Deus.


Pr. José Mário da Silva - “COMPROMISSO COM A CHAMADA”

Objetivo: Analisar o grande privilégio ser chamado para obra de Deus, e de lembrar que seremos recompensados. Abraçar a grande responsabilidade que é ser um obreiro na casa do Senhor, e de que temos que ter um compromisso de servi-lo com excelência. Além do compromisso com Deus, temos compromisso com a igreja, nossa família e com a sociedade.



Confira as fotos do evento:


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